Mudar é difícil
E como eu planejo superar essa dificuldade
Essa semana foi comum para quem olha de fora, como a maioria da nossa vida é. Mas internamente, foi uma semana bem tumultuada.
Algo que fica mais claro para mim é a dificuldade de se mudar algo. Todo mundo está tentando mudar pelo menos uma coisa na vida, e a maioria não consegue, e não vai conseguir durante toda a vida.
Alguns desistem, outros continuam tentando até o fim, sem sucesso. Agora, existem aqueles poucos, que conseguem, de fato, mudar algo em sua vida - é entre esses que eu quero estar.
E durante essa semana o que percebi foi que do jeito que estou indo, eu vou estar entre os que continuam apenas tentando, sem nenhum êxito.
Vou dar um exemplo real. Atualmente tanto eu, quanto minha esposa trabalhamos bastante, por isso sábado é o dia que eu reservo para cuidar de coisas como lavar o quintal de casa, dar banho na cachorra, arrumar algo que precisa na casa, enfim, dar uma geral nessas tarefas, para que a semana seguinte possa rolar sem um acúmulo de tarefas cotidianas.
Toda semana eu planejo repetir a mesma rotina de acordar bem cedo, estudar, escrever, e então trabalhar, no caso, realizar as tarefas de manutenção da casa. Pelo meu planejamento, eu deveria estar livre por volta das 15:00 para poder focar nos meus projetos e outras atividades mais importantes para o desenvolvimento da minha vida.
Só que a realidade é bem diferente. Geralmente durante a semana eu falho nas horas de dormir, quando chega sexta e sábado, estou com sono atrasado, o que dificulta manter a rotina. Na sexta em especial, eu sempre acabo jogando alguma coisa a noite, seja futebol com os amigos, seja um Dota em casa, e eu sempre vou deitar muito mais tarde do que deveria.
No sábado, eu não consigo levantar na hora que deveria, e o que deveria estar pronto às 15:00, eu começo a fazer às 15:00.
Isso sem contar o sentimento ruim de ter falhado, a culpa, a vergonha interna, e toda essa coisarada gostosa.
O problema é que isso acontece toda semana. Toda semana eu percebo. Toda semana eu sei que vai se repetir. Toda semana eu repito. Toda semana eu me pergunto por quê.
Tentando responder essa questão, comecei a pensar em vícios, dos tipos que destroem uma vida, como drogas e álcool. Na minha vida, conhece pessoas que conseguiram ficar livre desses vícios, e todas elas têm algo em comum, tiveram que mudar a vida, quase que inteira para isso.
Por exemplo, uma pessoa que conheci pessoalmente, e teve problema com alcoolismo, me contou que antes de conseguir parar, sempre tinha recaídas, porque ‘uma coisa levava a outra’.
Ele dizia que se tomava uma cerveja, já tinha vontade de tomar pinga, e se tomasse pinga, já era, não parava mais naquela noite. Porém, se ele estivesse com certas pessoas, ele iria acabar tomando uma cerveja. E ainda, certo lugares, tornavam muito difícil resistir a primeira cervejinha.
Não é o caso desse conhecido, mas já ouvi de outras pessoas que para parar de beber, precisaram parar de fumar, porque uma coisa levava a outra, e para parar de fumar, precisaram se afastar de pessoas que estavam sempre fumando, afinal, é quase impossível parar com o cheiro de um cigarro aceso na sua frente.
Em resumo: mudar uma coisa, leva a mudar várias coisas. Por isso é tão difícil mudar, e por isso poucos conseguem.
Pensando nisso tudo, comecei olhar para a minha vida. Claro, não estou comparando os efeitos destrutivos do álcool e outras substâncias viciantes com a minha situação, nem se compara, a conexão que faço é apenas com a dificuldade de se mudar um comportamento e como geralmente exige todo um sacrifício.
Então, vamos lá, quando começa o meu problema com o sábado? Bem antes, às vezes na quarta.
“Vou jogar só uma partida, só uma horinha”
Nunca é, sempre viram 3 ou 4 horas. Pronto, já dificultei o resto da semana. Chego na sexta e penso que bom, eu trabalhei a semana inteira, preciso dessa recompensa, e mais uma vez, estou eu lá, jogando. Mesmo nos dias que eu digo: ‘não vou jogar’, quando percebo, estou jogando.
Colocando no Google a pergunta ‘o que é um vício’, obtive essa definição:
Eu posso tranquilamente me rotular como um viciado em jogos de computador. É um comportamento compulsivo, que mesmo sabendo que vai me prejudicar, eu continuo a fazê-lo.
Eu não vou ter os danos de um viciado em aposta, crack ou álcool, porém, isso me impede de mudar as coisas na minha vida que eu quero mudar, basicamente, de agir no mundo de maneira intencional, não apenas reativa. Imaginar, planejar e executar.
Mudar o que eu quero mudar, vai exigir diversas outras mudanças. Vai ser difícil, e sempre tenho o medo de não conseguir. Mas tentar é sempre melhor do que assumir a derrota.
E no final, eu acredito que vou conseguir, porque eu estou disposto a sacrificar o que for necessário, em troca de quem eu quero ser.
Isso tudo também me fez ser um pouco mais pragmático quando lido com os outros. O que aconteceu, vai sempre tender a se repetir.
A pessoa que trai, sempre vai trair. O atrasado vai sempre atrasar. O mentiroso vai sempre mentir.
Eu sou esperançoso, eu sempre acredito na mudança das pessoas, afinal, se eu deixo de acreditar que os outros podem mudar, eu concluo que eu também sou incapaz.
Dito isso, eu reconheço que devido ao esforço e sacrifício necessário, a grande maioria das pessoas, nunca vai mudar, quem elas são hoje, é quem elas vão ser quando morrer.
É triste, mas me parece ser a verdade. Só quero fazer o que eu puder, para que eu não seja assim.
Por fim, outro ponto importante que percebei essa semana foi que pela primeira vez, eu não me importo mais com a minha idade. Hoje, tenho 33 anos, farei 34 em junho. Durante todos os meus 20 anos, eu fiquei paralisado pensando se era ‘tarde demais’ para mudar, começar algo, ou seja, lá o que for, ironicamente, permaneci essencialmente igual durante todo esse tempo.
Hoje, depois dos 30, eu não me importo mais, ser ou não ser tarde demais, não é mais um fator a considerar para mim, apenas faço o que eu posso fazer, com toda a urgência que eu possa ter, mas nunca com pressa.
Na realidade, eu já não ligo para isso desde os 28, provavelmente, eu só percebi que não ligo para isso agora, durante uma conversa com um amigo, que estava com medo de estar ‘atrasado’ aos 22 anos.
Enfim, eu tenho mais coisas que gostaria de falar, mas escrevi demais já, e graças ao meu vício em jogo, é sábado e eu ainda nem comecei a lavar o quintal, e são quase 15:00, como sempre. Mas esse foi o último sábado assim.
Pode não parecer, mas eu estou extremamente esperançoso para o meu futuro.




Victor, que texto honesto e necessário.
Sua reflexão me lembrou muito algo que também experimentei, percebi, em certo ponto, que para ser quem eu queria ser, não bastava mudar um hábito, era preciso transformar o ambiente, o estilo de vida, e até mesmo alguns vínculos que sustentavam padrões antigos.
Mudar, como você escreveu com clareza, é um projeto de longo prazo que exige intenção, esforço e muita coragem.
Me identifiquei especialmente com essa ideia de que uma coisa leva a outra. Às vezes, para conseguir acordar mais cedo, você precisa começar mudando suas noites, para mudar as noites, precisa mexer no lazer, e, pra mexer no lazer, precisa rever o sentido que você dá a esse tipo de recompensa.
Parece simples no papel, mas é quase como reorganizar a arquitetura de quem a gente é.
Fico muito feliz de ver alguém falando disso com essa lucidez e sem aquele tom de “autoajuda pasteurizada”. Mudança real é suada, é lenta, e por isso mesmo é tão transformadora.
Escrevi sobre dois momentos muito pessoais de transição, talvez eles conversem com essa sua fase.
Da adolescência aos 40 e Rascunhos de mim.
Deixo os dois links aqui, caso queira ler, seria uma alegria ver o que você pensa sobre isso.
https://alexlimad40.substack.com/p/da-adolescencia-aos-4o
https://alexlimad40.substack.com/p/rascunhos-de-mim
Abraço grande,
Ale
Victor, seu texto facilmente poderia ser escrito por mim, porque vivo exatamente isso – basta trocar jogos por celular/insta/youtube. Consumo muitos conteúdos que me incentivam a melhorar, mas fazer e permanecer fazendo já é outra história. Espero que dê tudo certo por aí e você consiga ter sábados mais produtivos!